Frases

29/05/2012

Não existe Guerra Santa


"Não existe Guerra Santa. Isso é um grande antagonismo." Renato Russo

Autoridade?


Esses são dias onde os títulos são mais valorizados pelas pessoas do que o seu real valor enquanto pessoas. É a velha sentença "TER > SER". Existem pessoas que ao serem perguntados por seus nomes, empostam a voz para dizerem que são o doutor, vereador, desembargador, delgado ou pastor, Fulano de Tals.

Nos grupos religiosos cristãos, especificamente oriundos do evangelicalismo brasileiro, isso é algo bem comum. Muitos são os pastores, reverendos, bispos, mestres, apóstolos, patriarcas e em breve, antevejo, semi-deus. E não ouse chamar um bispo de pastor ou será repreendido por não respeitar a hierarquia eclesial blábláblá.

Não preciso dizer que tais títulos são apenas um modo de intimidar as pessoas mediante a uma unção. É como alguém que é parado em uma blitz de trânsito e apresenta sua identificação governamental para ser liberado. É claro que muitos dos líderes religiosos cristãos são bons homens que não impõe respeito pela sua titulação, antes são bons homens seguidores de Cristo. Mas não poucos são os que usam de títulos para demonstrarem aos seus ouvintes o quão importantes, entenda-se ungidos, são.

Num mundo onde os títulos são mais importantes do que nosso real valor diante de Deus, o cristão é chamado a abrir mão de todo e qualquer título que lhe credencie como autoridade sobre os demais. Pois assim serão mais parecidos com Jesus que nunca usou de sua autoridade para obter vantagens ou intimidar alguém, fosse este o Diabo, ou os soldados romanos ou Pilatos (Mt 4; 26; Jo 19).

Brennan Manning em seu livro O Impostor Que Vive Em Mim, faz a seguinte afirmação: "Se fizéssemos a seguinte pergunta a João: Qual a sua identidade primordial, sua percepção mais corrente a respeito de si?, ele não responderia: Sou discípulo, apóstolo, evangelista, mas: Sou aquele a quem Jesus ama". No Evangelho de João a sentença "a quem Jesus amava", aparece se referindo a João. Essa era a sua identidade. Esse era o modo o qual ele queria ser conhecido pelo mundo.

23/05/2012

Jesus Wild West

Ser "reformado" é a solução?

 Mesmo? Jurava que tinha sido Jesus... 
(imagem retirada da internet)

Devido a interminável onda de espiritualidade "estranha" que se tem experimentado no país, podemos observar o surgimento de muitos auto-proclamados neo-reformadores, que acreditam que a única alternativa ao que se vê frente as distúrbios de espiritualidade seja um retorno ás bases, ideologia e práxis da Reforma Protestante.

Tendo em vista se diferenciar daqueles, este novo grupo busca um retorno á espiritualidade da Reforma, aparentemente, sem mesmo ter uma visão histórica e crítica sobre o movimento que se rompeu no século XVI. Saber nomes e lemas não faz de nós conhecedores deste movimento. Isso pode ser dito da grande maioria dos neoreformadores.

O calvinismo surgiu como único escape norteador teológico (como se não houvesse dentre aqueles que são criticados, farelos de calvinismo na ideologia do somos filhos do Rei). Seus atuais paladinos tornaram-se representantes da ortodoxia correta. Os lemas da Reforma são decorados (Sola Scriptura, Sola Christus, Sola Gratia, Sola Fide, Soli Deo Gloria). Falecidos pregadores tornaram-se semideuses e suas pregações fielmente repetidas nos púlpitos. A Bíblia foi deificada devido a uma má interpretação do contexto do Sola Scriptura.

Acaso saberiam estes de que o movimento da Reforma tem seu lado obscuro, também? Que Lutero e Calvino consentiram no assassinato de muitas pessoas? Que muitos dos prosélitos da nova Fé ingressaram no protestantismo por imposição de seus monarcas, que por sua vez tinha interesses escusos ao abandonar a religião de Roma? Que, conforme bem observou Weber, o protestantismo forneceu as bases para um capitalismo cada vez mais voraz?

Acredito que ir para o outro extremo deste cabo-de-guerra não é uma resposta saudável á essa espiritualidade estranha que vemos por aqui. Nem mesmo idealizar a, tão ufanada, Igreja Primitiva seria uma resposta cristã. São contextos e culturas muito distantes do nosso e impossivelmente serão reproduzidos para que sejam implantados.

A melhor alternativa, talvez, seria um repensar da Fé á partir de nossos problemas e cultura. Na Bíblia o desenvolvimento da teologia se dá mediante dos problemas e necessidades do cotidiano, rumo a uma práxis que manifestam o caráter de Deus. Noé surge aquele que poderia recomeçar mediante uma sociedade má. Abraão é chamado para dar origem a uma nação que manifestasse a vontade de Deus. O pastor de ovelhas Moisés foi chamado mediante o clamor do povo escravizado. Amós larga a vida de homem do campo para se levantar como porta-vóz dos oprimidos. O que dizer de Paulo, que desenvolveu toda a sua reflexão teológica á partir do cotidiano de seus leitores e ouvintes?

Nossa prática de espiritualidade deve nascer á partir dos clamores e anseios do contexto o qual estamos inseridos. E não á partir dos problemas que Valdo, Wycliffe, Huss, Zwinglio, Lutero e Calvino encontraram em seus dias. Da Reforma, podemos usar de seu lema para podermos seguir adiante: Igreja reformada, sempre se reformando. Até mesmo da Reforma Protestante precisamos nos libertar, rumo à espiritualidade sempre reformada.

18/05/2012

Deus também ora


"Ali ficou a noite inteira em oração, na presença de Deus."
Lucas 6:12, A Mensagem.

Muitas são as passagens que narram que Jesus era um homem que orava. Se quisermos ir além do exemplo dado por Jesus ao fazer orações, chegaremos a seguinte pergunta: Se Jesus era Deus, por que orava á Deus?

Antes de tentar responder pensemos um pouco sobre a oração. Podemos dizer que orar significa basicamente elevar a alma á Deus. Podemos dizer que é o meio o qual o crente se dirige ao Crido. Podemos dizer ainda que é um clamor, pois como bem disse Eça de Queiroz, "quem não conhece o poder da oração, é porque não viveu as amarguras da vida". É um grito daquele que sofre seja pela falta de comer, seja pelo vazio que ter tudo causa. "Senhor, socorre-me", gritou a mulher cananéia, tal qual Bartimeu.

Para se fazer uma oração não precisa ter um local certo, não precisa pertencer a uma determinada religião, ter um intermediador, ou mesmo saber as palavras certas. Segundo Jesus, basta que seja "simples e honesto na presença dele" (tradução A Mensagem). Não deve ser algo pretencioso, visando bajular Deus em troca de benevolências como faziam os antigos israleitas (Jr 7; Is 1; Am 5).

A oração aproxima o orador de Deus. Constrói relacionamento e como bem postulou Kierkegaard, "a função da oração não é influenciar Deus, mas especialmente mudar a natureza daquele que ora". Diferentemente do pensamento evangélico vigente no Brasil, a oração não é algo que existe para mover a mão de Deus, mas algo que move o cristão em direção ao Cristo.

Voltando a pergunta, por que Jesus orava, então? Proponho responder á partir dessa canção e peço que leia como se o próprio Deus cantasse isso a seu respeito:

Toda vez que penso em você
Eu sinto passar por mim um raio de tristeza
Não é um problema meu mas é um problema que tomei para mim
[Você] vivendo uma vida e eu fingir que está tudo bem
Não faz sentido em me dizer
que "A sabedoria de um tolo não vai te libertar"
Mas é assim que as coisas são
E o que ninguém sabe é que
A cada dia minha confusão [a seu respeito] cresce
Toda vez que vejo você caindo
Eu fico de joelhos e rezo
Estou esperando pelo momento final
Que você dirá as palavras que não posso dizer¹

Paulo diz que Jesus é aquele quem intercede por nós (Rm 8.34). Quando oramos vamos em direção á Deus. Quando Jesus ora o caminho até nós é trilhado por Deus. É como dois pontos distantes fossem se direcionando um para o outro até que nossa vida se transforme em uma oração. Jesus orou pois este é o caminho que nos aproxima. É caminho de mão dupla onde aqueles que estão separados ontologicamente vão se aproximando a cada oração.

Ore! Tire tempo para dizer as palavras que Ele não pode dizer por você: fale com Ele sobre os sentimentos que tem por Ele; peça perdão pelo modo como você tem levado sua vida, como tem tradado as pessoas. Isso, Ele não pode dizer por você. Como afirmou Paulo, "o amor não se impõe aos outros" (1 Co 13, A Mensagem).

¹ - Bizarre Love Triangle, New Order.

Opinião sobre A Árvore da Vida


Ele remirá a Israel de todas as suas iniqüidades.
Salmos 130:8

Assisti ao filme A Árvore da Vida, de Terrence Malick. Basicamente o filme inicia com o questionamento de Deus para Jó "onde tu estavas quando comecei a fundar a terra...?" (Jó 38:4-7). E segue-se uma série de narrativas alternadas por diversos personagens.

O filme trabalha uma série de questionamentos sobre a ação de Deus nos momentos difíceis da vida (doença, violência doméstica, frustração profissional, acidente com um incêndio, morte do um amigo enquanto se diverte nadando, morte de um familiar próximo, orações não respondidas, etc). As perguntas que são feitas ao longo do filme dão a tônica que prende um observador mais atento. Tais questionamentos nos fazem pensar em nossas indagações e dúvidas sobre o modo o qual Deus escolheu atuar no mundo, o problema do Mal, o paradoxo de Epiruco, etc.

Um dos pontos interessantes do filme é que a proposta de espiritualidade sugerida é teológica e científica ao mesmo tempo: há uma belíssima sequência de imagens dando a entender o mundo numa perspectiva evolucionista, a la Charles Darwin. E no final do filme todos se encontram num lugar post mortem, onde não havia lágrimas ou tristeza (Ap 21).

O cerne do filme é o tema da redenção que contradiz todos os problemas e, por assim dizer, pecados dos personagens. Os questionamentos não respondidos dão o ar de que somos parte de um plano maior e que muitas vezes focamos problemas pontuais de um algo maior. O sentimento de "sou o deus de Deus" se esvanece á medida que o filme é absorvido em nossos sentidos.

Certamente que o filme não há de agrada a todos os tipos de cristãos. Tal qual nem todas as reflexões bíblicas agradam. O autor do filme não se preocupa com isso. Me parece que ele entendeu muito bem o verso que diz que "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus" (Rm 8:28). É como se não fizéssemos idéia do plano maior o qual estamos inseridos e tentássemos colocar Deus contra a parede em busca de respostas, como fez Jó e seus amigos. 

O filme fala sobre vida, e vida em abundância (Jo 10:10), sobre viver o presente e ter esperança que estamos apenas de passagem para um algo maior (Hb 11:13). Fala de redenção. O título do filme A Árvore da Vida faz um paralelo com a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, ambas citadas em Gênesis 2. Se o fruto da segunda trouxe o caminho da condenação o da primeira, título do filme, aponta para o caminho da redenção. É sobre isso que o cristianismo se trata: um Caminho de redenção. Estamos num caminho de redenção,
"Porque é Deus que, em Cristo, reconciliava consigo o mundo, não levando mais em conta os pecados dos homens, e pôs em nossos lábios a mensagem da reconciliação." 2 Coríntios 5:19
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