Como muitos "irmãos" se posicionam neste momento tão importante.
18/06/2013
17/06/2013
Que se esvaziem as Igrejas; que se encham as ruas!
Esses são dias os quais o povo brasileiro tem sido agente de mudança através de protestos deflagrados em várias cidades do país. Os protestos iniciados em São Paulo vão dia após dia servido de incentivo aos demais brasileiros a se rebelarem contra o sistema de corrupção que suga as riquezas da nação e mantém o povo á margem de seus direitos e da justiça que lhe é negada.
E qual tem sido o papel da Igreja nesse contexto? Infelizmente a Igreja têm se calado face aos problemas e ás manifestações que vão enchendo as ruas. A apatia das comunidades religiosas talvez seja pela temeridade de perder o apoio político que receberam dos muitos políticos que se elegeram com o apoio do púlpito de muitos líderes cristãos. Uma vergonha.
Neste momento histórico de nossa história recente não temos nenhum líder cristão como expoente na luta pelo fim da corrupção e do uso indevido do dinheiro do povo. Em um país que se gaba por ter profetas, coisa que discordo, não vemos nenhum profeta como Amós, Oseias, Miquéias, Jeremias, Elias, etc. Tão pouco temos um homem como Marter Luther King Jr. para representar os cristãos no fronte do combate pacífico. É também neste momento histórico que a Igreja da História corre o risco de ser "a Igreja que ficou na história, vendo a banda passar".
Ou a Igreja do Senhor Jesus se posiciona como agente de transformação neste momento, ou correrá o risco de ser lembrada como um grupo que se manifesta em prol de um Cristo morto e não ressurreto. E não é disso que o cristianismo se trata. A Igreja deve se posicionar nas ruas, nas redes sociais, em nossa não participação deste pandemônio que fizeram de nosso país com gastos exorbitantes em estádios de futebol, etc. Ou é Igreja da História é Igreja na História. "Que se esvaziem as Igrejas; que se encham as ruas!"
E se você acha que os problemas dos manifestantes "não é o seu", deixo esta reflexão do pastor alemão Martin Niemöller:
"Primeiro, os nazistas vieram buscar os comunistas, mas, como eu não era comunista, eu me calei. Depois, vieram buscar os judeus, mas, como eu não era judeu, eu não protestei. Então, vieram buscar os sindicalistas, mas, como eu não era sindicalista, eu me calei. Então, eles vieram buscar os católicos e, como eu era protestante, eu me calei. Então, quando vieram me buscar... Já não restava ninguém para protestar."
12/06/2013
O que eles esperam de nós
Cultos nos ônibus e metrôs, programas de televisão em vários horários e canais, bandas e mais bandas gravando em selos de destaque nacional, artistas indo aos cultos, religiosos engrossando as fileiras políticas nas diversas Casas, templos cada vez mais suntuosos, projetos de leis que endossam o "nosso" modo de pensar, enfim: "o que eles esperam de nós?"
Essa pergunta deveria ser refletida todos os dias pelos cristãos brasileiros, nesses dias de muito Evangelho e de Evangelho algum. As vozes religiosas têm ecoado o que do púlpito é proferido aos quatro cantos do país. Nunca os meios de comunicação estiveram tão abertos ao que os teístas cristãos têm a dizer. Qual é a mensagem que vem sendo repetida dia após dia pelo povo chamado para anunciar as virtudes dAquele que os convidou para fazê-lo (1 Pe 2:9)?
A triste verdade é que quando perguntarem para a próxima geração de pessoas, "quem eram os cristãos" de nossa geração, a resposta não será outra, senão "pessoas que por meio da força tentaram impor seu modo de ver a vida". Não deve-se generalizar, mas quase todos se encaixam na sentença acima.
Então, "o que esperam de nós?" Não muito. Esperam de nós que sejamos pessoas que representam do amor em sua forma mais ampla o possível; pessoas dispostas a perdoar os nossos ofensores; esperam que sejamos complacente com a dor do próximo, ainda que ele não professe o mesmo credo que o nosso; esperam que amemos o nosso Deus e não que defendamos a Ele com pedras ás mãos a qualquer um que pense diferente; que não tentemos impor o nosso Deus sobre o deles, pois Deus é "Uno" (Mc 12:32); que nosso exemplo seja nossa pregação; que nossa devoção a Deus não seja insana; que nosso livro sagrado não atropele os direitos civis dos outros; que não busquemos os poderes políticos" para exercer "nosso" querer, antes para que a justiça corra como um rio sem fim (Am 5:24); que não sejamos dado á usura - esta última inserida no meio cristão com maior ênfase pelos reformados (ver "A ética protestante e o espírito do capitalismo", de Max Weber).
Se nos preocuparmos com o que menos nos torna alvo dos holofotes midiático, estaremos alcançando corações que já não têm esperança no movimento cristão. Pessoas olharão para nós e enxergaram o Cristo que dizemos estar vivo em nós. E se por ventura pararmos para pensar bem, veremos o que eles esperam de nós é o que próprio Cristo espera de nós também. Sim, é disso que o Sermão do Monte se trata.
07/06/2013
Diário de um desigrejado: Vigésima terceira semana
Parti. Um tanto influenciado por muitas outras partidas, parti. Dividi. Não fui o primeiro a fazê-lo, mas cirurgicamente dividi com o cuidado de não deixar nenhum ferido em algum dos lados. Desafiei. Como um adolescente, um tanto pueril talvez, desafiei o sistema existente no "meio" e em mim. Cresci. Ainda é cedo para dizer, mas já não sou o mesmo de antes: eu cresci.
Alguns crescimentos são bons e outros ruins. O bebê que cresce no ventre da mãe que ansiosa espera pelo primeiro choro da criança é um bom crescimento. O câncer que cresce e se espalha pelo corpo é um crescimento ruim. Mas todos precisamos crescer. O crescimento é um sinal de que estamos vivos.
Escrever já foi mais fácil. Digito cada palavra com esforço homérico para que haja inspiração para uma próxima palavra e a cada nova linha vou sendo aquecido por Aquele que é a fonte de toda a inspiração humana. Nestes meses decorrentes ao meu desigrejamento tenho tido vontade de escrever reflexões das mais variadas. Minha habitual prepotência faz ecoar dentro de minha cabeça a ideia de que um dia eu poderia ser um bom escritor. Devaneio de devaneios.
A verdade é que antes tinha mais o que escrever. Minha pena era áspera e minha tinta não reluzia cores atraentes. "Era ou é?" Eu não saberia dizer... Tenho oito rascunhos pela metade arquivados no Blogger e nem sei se algum dia ganharão vida. Eles fazem parte de outra época. De uma época a qual tenho saudades e saudade nenhuma. Meus bons meninos e meninas cresceram e eu não estava lá. Mas pelo menos também não estava lá para ter mais material para minha áspera pena. O crescimento cobra seu preço.
Parti, dividi, desafiei e cresci. Parti, pois me considerava um remédio que não surtia mais efeito e poderia acabar trazendo efeitos colaterais não previstos. Dividi, pois eu sabia que se junto estivesse não deixaria que tomassem o seu próprio caminho. Desafiei, porque não acredito que certas práticas promovam o reino de Deus. Sim, eu cresci. Cresci e não vou mais partir, dividir ou desafiar novamente. Onde pousar estarei unindo e juntando os cacos quebrados. Desafiarei a mim mesmo a permanecer num lugar onde Pedro's e Paulo's possam ser diferentes e juntos cearem. Não importa quão grande sejam as diferenças.
Escrever esse diário é libertador. Escrever é expurga os demônios de quem escreve. Quem escreve abre a porta da alma á quem se dispõe a ler. Escrever é dar vida ás ideias de uma mente nem sempre sã. Escrever foi o meio que um povo decidiu contar sua história com o seu Criador. Escrever é o meio pelo qual este menino que vai crescendo aos poucos, a contar sua história com o seu Criador.
06/04/2013
Diário de um desigrejado: Décima sétima semana
"Quem sou eu?"
Apesar ter passado pouco mais de três meses desde que desliguei-me de uma comunidade de fé, tenho percebido em minha própria vida uma série de mudanças. Algumas positivas e, infelizmente, outras negativas. Compartilho hoje sobre algumas percepções de um recém desigrejado. Vou comentar sobre alguns perigos os quais enfrento dia após dia.
Embora meu "desigrejamento" não tenha sido algo totalmente planejado, jamais pensei que pudesse enfrentar uma crise de identidade. Sim, em alguns há no afastamento eclesial uma perda de identidade que pode trazer sérios desvios anteriormente não concebíveis. Tenho passado por situações as quais tinha algum domínio sobre elas e, a meu ver, facilidade para lhe dar com determinados problemas. Paro. Penso. Chego a seguinte conclusão: "Já não sou o mesmo. E não gostei desse 'novo eu'."
A primeira atitude que tomei com enorme facilidade enquanto desigrejado foi negar minha antiga identidade. Como um adolescente, andei por alguns caminhos de forma um tanto pueril propositalmente. Tudo o que fazia era como se estivesse tentando me afirmar enquanto desigrejado. Era como se para dizer para mim e para o mundo que eu era diferente do que critiquei e, de certo modo, deixei para trás. Negar a antiga identidade foi o primeiro ato.
Ao negar a antiga identidade percebi que á miúde ela dando lugar a uma nova identidade, um tanto radical. Uma identidade que não era minha. Identidade que era embasada em modelos de cristãos desigrejados que agiam de forma radical para caminharem á passos largos para longe daquilo que foi um dia. Esses tomam a via radical do "desigrejamento" por, talvez, terem sofrido abusos os quais querem a maior distancia física, ética, moral e cronológica. Fazer coisas que antes era "pecado" torna-se um desafio, uma aventura.
O silêncio o qual me propus, foi sendo preenchido por outros sons que destoavam da calmaria da reflexão que o silêncio trás. A perda do silêncio aconteceu-me meio as muitas propostas de barulho. É muito fácil dizer que "está em período de reflexão", quando na verdade qualquer coisa que ocupe a mente é mais interessante do que o momento de reflexão. Não era isso que eu tinha em mente!
Recentemente cheguei a conclusão de que preciso saber todos os dias quem eu sou. "Quem sou eu?", pergunto-me quando me levanto e quando me deito. Esta pergunta tem me mantido acordado e me ajudado a lembrar-me de minha verdadeira identidade. A identidade que tenho no Altíssimo, que foi conquistada por um alto preço.
"Quem sou eu?"
Meu nome é Felipe. Sou casado com a Flávia a oito anos. Sou uma pessoa que decidiu caminhar ao lado de Deus após uma longa vida de tropeços. Aprendi a amar a Deus e só disse que O amava quando verdadeiramente senti isso em meu coração. Decido a servir ao Senhor e as pessoas, fui chamado em minh'alma para fazer seminário teológico. Impelido pelo Espírito fui pastor de jovens por três maravilhosos anos os quais com muita dificuldade e alegria, fui agraciado pela presença de amorosos irmãos na fé. Intrigado pelo modo como o sistema eclesiástico girava a roda de seu moinho, decidi não ser mais vento naquela roda. Eu sou Felipe e espero que o Sol volte a brilhar novamente na Igreja brasileira com ou sem a minha ajuda. Amém.
30/03/2013
Quando Deus não funciona
Desde a antiguidade as pessoas estão em busca de um deus que funcione. Indiferente de qual seja a religião, os seguidores de um determinado deus esperam que sua divindade controle o cosmo em seu favor, seja para salvá-los de alguma calamidade ou para destruir algum inimigo. Não importa se o deus é macho ou fêmea, bicho ou gente, o que importa mesmo é que esse deus funcione.
Em nossos dias isso também ocorre. Do mesmo modo como um camponês que há três mil anos via seu deus falhar quando a chuva era negada e a plantação era tragada pela seca, e, com isso, ia à busca de outro que funcionasse. As pessoas ainda estão em buscam de um deus que funcione. E esse deus pode estar numa outra comunidade de fé da mesma religião ou até mesmo em outra religião. Uma vez encontrado o tal deus que funciona, um coisa é certa: cedo ou tarde a divindade irá precisar ser substituída por outra que esteja mais disposta a responder o clamor dos pedintes.
Muitos ainda acreditam num deus mitológico que responderá a cada solicitação mudando, assim, o panorama de toda a história a seu favor como se o indivíduo fosse maior que o coletivo. Conheço dois jovens que aderiram a uma religião oriental após conseguirem ingressar na faculdade com o auxílio daquele deus. Sua mãe, até então incrédula, fez o mesmo após ter uma antiga causa na justiça solucionada. Se o antigo deus cultuado não resolveu o problema, talvez o novo seja o deus a ser adorado. Com isso, diversas igrejas vão agremiando fiéis a cada vez que um pedinte entende que o deus não funcionou.
Os judeus do século oitavo antes da era cristã também criam que para cada necessidade havia um deus diferente para responder ás petições. Fazendo eco a seus pais que não encontraram dificuldades em trocar o Deus Javé pelo deus Baal uma vez que esse último conhecido por enviar a chuva para a plantação, o deus do agricultor. Contudo, Javé fala através do profeta Oseias que "[o povo], pois, não reconhece que eu lhe dei o grão, e o mosto, e o azeite, e que lhe multipliquei a prata e o ouro, que eles usaram para Baal" (Oséias 2:8).
Entretanto, o cristão deve seguir o seu Deus ainda que ele não funcione. A confiança do cristão deve estar na esperança de as coisas acontecerão e não no fato realizado em si. É disso que a carta aos hebreus capítulo 11 trata: da esperança. Bem antes do escritor aos hebreus nos presentear com sua carta o profeta Habacuque deixa sua alma gritar em adoração e afirma que "ainda que figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado [...] Encontrarei minha alegria no Deus de minha salvação." (Habacuque 3:17-18).
Só compreendemos o tamanho da fé do profeta, se considerarmos que o judeu não esperava uma promessa de morada no céu. Para o judeu a vida com o Senhor é vivida hoje na terra. Como cristãos somos convidados a amar sem esperar resposta, ajudar sem esperar agradecimento e crer ainda que o Cristo não saia da cova no terceiro dia. Somos convidados nesta sexta-feira da Paixão a nos mantermos firmes na esperança de que as coisas irão melhorar e não apenas esperar o nosso Cristo funcionar nos nossos dias de coelho e ovos.
Desejo a todos uma feliz Páscoa e mais esperança no Cristo que ressuscitou quando ninguém mais esperava que ele pudesse funcionar novamente.
22/03/2013
Quarta-décima quarta semanas
Sim, continuo desigrejado. Por que não falo mais sobre isso? Simples. O silêncio é o melhor remédio para quem está vivendo esta fase da Fé. Mas que não se confunda o silêncio que leva á reflexão com apatia. O segundo só leva ao distanciamento do Deus da Fé.
Tenho feito muitas coisas que antes não dava para fazer. Coisas simples, como fazer viagens curtas ou ir à casa dos meus pais no domingo na "hora do culto". Tenho ainda saído para jantar com amigos ou apenas com minha esposa. E tem sido bom. Se há algo da qual não sinto falta alguma é da obrigação de estar no culto. Sinceramente muitas vezes fui "obrigado" a não faltar para que as pessoas não me tomassem como um mau exemplo. Para alguns faltar ao culto é quase um crime. Como chegamos á isso?
É lamentável que tenham preenchido a semana do cristão evangélico com tantas atividades distribuídas em eventos, congressos e reuniões infindáveis. Não acho que estas atividades sejam ruins, mas penso que seja ruim a quantidade massiva de vezes em que a Máquina Ministerial impõe aos membros de estarem em seus eventos. Não deveria ser assim. As reuniões de culto deveriam não ser prolongadas e tão pouco repetidas durante toda a semana. Se o cristão é o sal do mundo, ele é o único sal que permanece no saleiro por imposição das mãos que seguram o saleiro.
Tenho observado que por não haver um compromisso fixo, como o culto dominical, por exemplo, a semana parece ter pouco sentido. É muito fácil ter os dias e as horas preenchidas com atividades de trabalho, estudo e lazer. É como uma criança que não estimulada á leitura, prefere assistir TV a ler um bom livro. A TV já trás tudo mastigado. Não se precisa pensar e construir o mundo sugerido pelos livros. Os sons não precisam ser buscados na memória. Basta sentar-se e deixar ser levado. De igual modo o cristão, quando desigrejado, pode se assentar á margem da vida e apenas observar a vida passar diante dele. Mas é sempre assim? Acredito que não.
O que dá sentido a nossa vida não é o que fazemos e sim o que somos. As coisas que fazemos são feitas dentro de um espaço temporal e não podem ser mais do que servas de nosso ser. O que fazemos devem construir nossa consciência e história. Essas coisas devem ainda moldar a pessoa que somos. Ir a um culto é algo que fazemos para Deus, para o outro e para nós. Para Deus e por Deus servimos ao outro. E neste serviço ganhamos em vivência e em satisfação da alma. Cada coisa que fazemos neste mundo é um tijolo que constrói a ponte que leva-nos ao nosso "eu" melhor.
Por mais que seja estranha a sensação de não ter o compromisso fixo, posso - e devo! - continuar o meu culto pessoal a Deus. O que fazia na comunidade de fé é possível de ser feito fora dela. "Cultuar" é "servir". E serviço "a" Deus. Logo, tenho buscado servir a Deus em cada coisa que tenho feito. Este é o modo o qual tenho cultuado.
Mas tenho sentido muita falta do calor da comunidade, aquela sensação gostosa de ver os rostos conhecidos onde somos orientados por um líder bem intencionado. Sempre pensei que a práxis fosse mais relevante do que os momentos de devoção. Tornei-me um cristão pragmático, eu reconheço. E isso é perigoso. Perigoso, pois é uma ilusão pensar que Deus espera de mim mais do que eu possa esperar dEle. Ou seja, não é o que eu faço por Ele que conta na construção do meu "eu" e sim o que Ele faz por/em mim. O excesso de "serviço" leva a um pragmatismo que engole pastores, dizimando famílias de pastores. "Culto/serviço", sem momentos de devocional é como uma cadeira com uma perna menor do que a outra.
Acho que o melhor de estar desigrejado é o desintoxicamento de ideias, coisa que antes eu não conseguia fazer. É uma renovação da mente, estando longe do que me fazia chorar de angústia, algumas vezes. Espero que no meu desigrejamento eu possa olhar para tudo o que me formou até hoje e repensar as coisas que fiz e conseguir ser alguém melhor. Tenho pensado muito nos meu erros pastorais e nos erros teológicos que cometi. Gostaria voltar atrás e apagá-los. Mas prefiro acreditar que eles também são tijolos da ponte que vai me construindo.
Não sei quando escreverei novamente sobre meu desigrejamento. Até lá, ore por mim.
14/03/2013
A melodia do silêncio
Até que ponto a vida real se mistura com a vida virtual?
A mais ou menos uns cinco anos atrás me interessei por blogs. Na época meu desejo era que eu e minha esposa postássemos reflexões do cotidiano de um casal cristão. Não funcionou, pois ela entendia que precisaria se dedicar muito para que a coisa ficasse legal.
Quando estava próximo do fim do curso de Teologia, aposentei o antigo blog e dei início a este. Olhando para trás cheguei à conclusão de que este espaço nasceu á partir da minha necessidade de falar. Necessidade de dar voz as coisas que penso, acredito e, também, coisas que tenho dúvidas. Muitas foram as inquietações que me levaram a passar horas digitando para escrever um ou dois parágrafos. E sempre tive prazer nisso.
Atualmente o blog passa por uma crise que também é minha. O anseio por silêncio que minha alma pede, vem calando o blog dia após dia. A vontade de ir para dentro de mim e me trancar com minhas frustrações, dores, lamentações, decepções - só Deus sabe quantas foram - e dúvidas, levam-me a querer ouvir o silêncio que conforta e faz pensar. É momento de pensar e repensar.
Minha decisão de não exercer a função pastoral em minha antiga comunidade de fé e, por conseguinte, a pertencer a uma igreja, era algo que eu precisava fazer. Por mais que sofresse com o distanciamento de irmãos tão queridos, foi preciso fazê-lo. Ver algumas coisas e manter-me em silêncio de maneira passiva estava adoecendo a minha fé.
Minhas inquietações e escritos foram se tornando duras, carrancudas e em muitas as vezes me fiz um desalmado sem misericórdia quando tratei de alguns assuntos. E o que mais me entristeceu foi constatar que postagens que geram confusão são as mais vistas, curtidas, compartilhadas e propagadas. O blog que antes tinha uma pitada de humor passou a alimentar o ódio leviano de uma parcela de cristãos que precisam de apenas uma gota d'água para fazer um oceano de rancor.
Este não sou eu. Este não é meu blog. Este não é o cara que quero ser. Este não é o pastor que quero me tornar. Não!
Ultimamente tenho optado por não ouvir música quando estou só no carro indo para o trabalho. Tenho preferido o silêncio da casa vazia de manhã quando estou me arrumando para sair. Tenho preferido não ler no banheiro. Tenho buscado a melodia do silêncio que poeticamente enche-me o coração.
Afastar-me da comunidade de fé e de burburinhos de alguns blogs que arrastam multidões na Internet ao falarem dos muitos erros de outros cristãos tem me feito muito bem. Tão bem que não faço questão de dizer que o "Marco Feliciano não me representa".
Há uma paz no afastamento de confusões que não posso explicar apenas com um texto. Mas não me darei o trabalho para escrever sobre isso. É meu momento de desconectar de tudo. Alienar-me? Jamais! Apenas deixar o rio seguir seu curso. É na melodia do silêncio que como o salmista eu encontro minha cura nos braços do Criador (Sl 131).
E assim o blog vai experimentando um silêncio digital em sua alma, isto é, eu. Sim, eu sou a alma por detrás disso. Os defeitos aqui percebidos tem CEP e CPF. Tem rosto e cabelo (a maioria, pelo menos). Tem medos, anseios, dúvidas e um tanto de perguntas sem respostas. E enquanto a minha vida real pedir por este tempo de ausência eclesial e virtual, o blog também irá permanecer assim. Um beijo á todos que tiveram paciência de ler até esta linha.
04/03/2013
Intervenções
Pouco após a morte de seu mestre, um grupo de seguidores alcançou certa admiração das pessoas devido o seu modo de viver e se relacionar com a nova vida proposta pelo seu mestre. Eles se reuniam numa parte do Templo onde até mesmo as mulheres podiam ouvi-los - sua Mensagem rompia barreiras de gêneros na sociedade patriarcal. Embora houvesse admiração por parte do povo pelos seguidores de Jesus, não eram todos que se sentiam confortáveis em andar junto a eles, pois os seguidores acreditavam que seu mestre era o Messias prometido.
E aconteceu que o sumo sacerdote e alguns aliados saduceus não ficaram contentes com aquele grupo de pescadores e cobradores de impostos desempregados, pobres e, agora, sem um mestre. O grupo liderado pelo sumo sacerdote interveio naquela situação que colocava em xeque as suas bases de fé e lançou-lhes na cadeia da cidade. No entanto, um anjo interveio de forma miraculosa abrindo as portas da cadeia e libertou os seguidores de Jesus que voltaram aos templo e continuaram a anunciar a Mensagem.
No dia seguinte o sumo sacerdote convocou uma assembléia para julgar aqueles baderneiros e foi surpreendido com uma cela vazia. Vazia como o sepulcro do mestre dos subversivos do século primeiro. Mas não foi difícil encontrá-los, pois eles voltaram para o Templo para anunciar o que já não podiam guardar em segredo: estava em seus olhos; em seu modo de compartilhar o pão; no sentimento de unidade. E numa nova intervenção eles foram levados á assembléia.
Convictos de que sua Mensagem fazia sentido e preenchia as lacunas abertas em seus corações, eles falaram abertamente do seu Cristo a seus inquisidores. Tal ato inflamou o auditório e enfurecidos os religiosos queriam por fim a vida daqueles homens. Nisso surge um outro personagem fazendo uma nova intervenção, o Mestre da Lei e fariseu, Gamaliel. O respeitado Mestre da Lei pediu que retirassem os seguidores de Jesus da sala e discursou em favor daqueles que não tinham ninguém a seu favor.
Gamaliel lembra a seus irmãos israelitas que Jesus não era o primeiro homem a ser considerado um Messias entre eles. Lembrou-lhes de Teudas que tinha quatrocentos seguidores e que, no entanto, após sua morte eles foram dispersados. Lembrou-lhe ainda de Judas, o Galileu, que tinha certo número de seguidores e após sua morte o mesmo acontecera aos seus seguidores. Convencidos, a assembléia decide libertar os seguidores de Jesus, mas não sem antes marcá-los com chibatadas.
Das três intervenções, duas merecem destaque nesta história: a dos religiosos e a do Mestre da Lei. Os religiosos liderados pelo sumo sacerdote levantou-se contra aqueles que pensavam diferente deles. Levantaram-se contra aqueles que não tem voz política, econômica e militar para que suas ideias não ganhassem espaço. Se aproveitaram de sua posição junto ao governo romano para silenciar os pobres seguidores de um Cristo que não deixou herança financeira: "não tenho nem ouro nem prata". Desse modo, levantaram-se contra uma minoria, julgando em causa própria.
A intervenção de Gamaliel, que embora fosse de um homem religioso que gozava de respeito no meio dos religiosos, não interveio em causa própria. Antes, defendeu o direito de um povo que acreditava num deus que se encarnou, viveu comumente, morreu decadentemente e ressuscitou em esplendor. Defendeu o direito de quem não tinha voz diante os poderosos. Defendeu gratuitamente aqueles que não tinham dinheiro para pagar um defensor. Defendeu o direito do outro acreditar num deus diferente do seu.
O discurso de Gamaliel fez menção a pessoas que se levantaram como líderes, Messias, em prol da libertação do povo e que, contudo, morreram. Ao defender aqueles homens que alvoroçavam a capital da fé judaica no século primeiro, Gamaliel seguro de suas próprias convicções religiosas não suprime a possibilidade das convicções do outro serem oriundas do próprio Deus. Talvez naquele momento o Mestre da Lei não soubesse ainda, mas ao defender aqueles oprimidos arruaceiros estava defendendo o próprio Deus. Quando deixou a possibilidade da dúvida em aberto ele, ainda que sem querer, testifica sobre o Cristo ressurreto e vivo.
O que aprendo com o quinto capítulo do livro de Atos dos Apóstolos, é que quando me coloco ao lado dos mais fracos assumo o lado de Deus diante de um conflito. Ainda que o mais fraco não pertença ao meu gueto de fé, não leia o meu livro sagrado ou sequer seja um teísta. Sou impelido pela minha fé no ressurreto a intervir em favor do mais fraco. Talvez eu jamais consiga fazer um mudo falar, mas certamente posso ajudar aqueles que têm sua voz suprimida por qualquer tipo de opressão, sejam ouvidos. É na minha intervenção pelo outro que faço com que o meu Cristo esteja vivo para o mundo que me cerca.
Talvez a maior barreira que a minha fé precise romper seja a barreira da minha inércia em relação ao mundo.
22/02/2013
Joubert, o pequeno rebelde
A primeira vez que eu o vi foi num dia sábado de sol quente e muito futebol na rua, derrubando latas. Ele passou por nós correndo como que fugindo de uma prisão rumo á liberdade. Seus cabelos compridos e loiros se agitavam pelo vento enquanto ele atravessava o nosso "campinho" desenhado com riscos de tijolo. Alguns dos meninos o conheciam. Joubert era seu nome e ele estava fugindo do orfanato que exista próximo a casa da minha família. O Joubert é muito louco! - os meninos diziam com apreciação.
Um lar despedaçado em pedaços pequenos pela bebida, traições, mentiras e outros abusos. Uma família antes unida e agora fragmentada pelos erros de um e de todos. Coisas que não fiquei sabendo naquele dia que o menino de oito anos atravessou a rua fugindo para a casa de seu pai que morava pouco depois de minha casa. Ele fugia para encontrar seu pai.
Conheci seu pai pelo o que os adultos diziam sobre ele. Um beberrão que gosta de fazer orgias em sua piscina, diziam. Só me lembro do Opala branco fazendo a curva que ficava no fim de nosso campinho correndo muito, para subir a ladeira. Para mim era apenas alguém que gostava de correr e não tinha medo de atropelar um dos meninos que ali jogavam bola.
O tempo passou e descobri que Joubert morava no orfanato por decisão da Justiça, devido a briga entre os pais que os tornou inadequados para ficar com a guarda do menino. Mesmo assim, Joubert era fascinado pelo pai e suas fugas eram constantes. O mesmo sentimento não nutria pela mãe, o porquê eu nunca soube. Quando se separaram, o irmão e irmã mais velhos foram morar com a mãe. Quando seu pai obteve sua guarda, Joubert foi morar com a madrasta e dois irmãos do novo matrimônio do pai. Foi morando lá que ele me ensinou a burlar o telefone público para ganhar créditos no celular pré-pago.
Andava com camisas pretas do Nirvana e Megadeth. Gostava muito de rock. Morava numa casa bonita e grande. Tinha piscina. Embora eu nunca tivesse sido convidado para nadar lá, sei que muitos que eram mais próximos a ele foram lá se divertir. Seu pai tinha uma oficina mecânica na parte da frente da casa e lá aprendeu o ofício do pai. Mais tarde, quando nos tornamos mais próximo, ele me salvou diversas vezes quando eu saia com o carro do meu pai e dava alguma pane longe de casa. Uma vez ele me rebocou com uma corda por um bairro inteiro até a oficina. Demorou alguns anos para nos torar próximos. Foi logo após voltarmos do interior onde minha família morou por quase dois anos.
Éramos jovens, eu quase dezoito e ele com seus quinze anos - quase dezesseis, ele dizia. Ele dirigia o Uno de seu pai para todos os lados e sempre dávamos voltas pelos bairros próximos. Conversávamos sobre garotas, futebol, religião, etc. Ele até começou a frequentar uma igreja na época. Havia uma garota muito bonita chamada Daniela, e todos eram apaixonados por ela. Ela tinha dezenove. Joubert conseguiu a façanha de trocar alguns beijos com ela. Mas depois ela se interessou por mim, talvez por ser um pouco mais velho que ele. Ele chegou até mim e disse: Cara, ela é demais! Você vai gostar. Aproveite! Pouco a pouco começamos a desenvolver uma amizade.
Algum tempo depois vi Joubert correndo pela rua a noite, agora sem seus longos cabelos e com dezesseis completos. Quando chegou até mim disse que seu irmão mais velho estava querendo matar seu pai para ficar com a herança e que agora estava atrás dele também. Ajudei-lhe a se esconder aquela noite. Os dias se passaram com aquela constante tensão em sua casa. Seu irmão passava na porta de moto dando tiros no muro para amedrontar o pai. Ele disse que seu pai prometeu vender tudo, mudar para algum interior e recomeçar a vida. Foi nesta época que conheci minha esposa e começamos a namorar.
Um dia recebo uma ligação de meu irmão dizendo que o irmão mais velho do Joubert invadiu a oficina do pai dele e distribuiu vários tiros e um destes acertou o Joubert no pescoço. O tiro não o matou, mas lhe deixou em estado delicado no hospital. Decidi esperar para ir no hospital no outro dia pela manhã. Por motivos que não consigo explicar protelei minha ida para o fim do dia. Mas ao entardecer o Joubert veio a falecer devido a uma infecção hospitalar.
Foi a pior dor que senti em minha vida, um misto de raiva, indignação e culpa. Meu irmão que o visitou naquela manhã, disse-me que ele perguntou quando eu iria vê-lo. Ele queria me mostrar o tamanho do buraco em seu pescoço, disse sorrindo. Visitar ao Joubert era algo que eu faria por ele, para que ele se sentisse amparado e amado. Não visitá-lo foi algo, um mal, que fiz a mim mesmo para o resto da minha vida. Sempre me pergunto como teria sido nossa última conversa. Desde então ele me vem a cabeça sempre. Pedi e peço perdão a Deus desde aquele dia. Não como um fantasma, mas como uma voz que me conquistou e me amou como a um irmão. E eu não tenho nem uma foto...
Este ano faz dez anos que estou pedindo perdão ao Joubert e a Deus. Faz dez anos que estou ansioso para dizer isso e muito mais ao Joubert pessoalmente. Sei que o farei no dia quando Deus me recolher de volta a Ele. Por hora, fica aqui minha ingratidão e eterna gratidão, meu pequeno rebelde.
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